Tudo
começou com o Pithecanthropus
erectus. Numa bela tarde de verão, ele matava a sua fome e saciava a sua sede
comendo cajus à sombra de um fato cajueiro. Ou terão sido uvas, à
sombra de uma generosa parreira? Ninguém sabe ao certo. O fato é
que recolhia tais frutas não dos galhos, mas do chão, onde havia
dias fermentavam sob o calor do sol. Achou-as com um sabor estranho,
forte, porém delicioso, a ponto de levar um monte delas para sua
família. Chegou à caverna meio cambaleando, é verdade, mas
eufórico, quase cantando; e distribuiu as frutas fermentadas entre
seus parentes e amigos. Antes de a noite acabar, todos, à volta da
fogueira, confraternizavam em clima de festa.
Estava
descoberto o álcool. A partir daí, a humanidade nunca o abandonou.
Pelo contrário, destilou-o e fermentou-o das mais variadas maneiras.
Já
nas tribos primitivas ele fazia parte das festas e até dos ritos
religiosos. O próprio cristianismo até hoje utiliza o vinho como
símbolo do sangue de Cristo. Pode-se dizer que não há comemoração
humana, pública ou privada, de que alguma forma de bebida não
participe.
A té
aí muito bem! A não ser os eternos moralistas, sempre dispostos a
enxergar em tudo quanto for prazer alguma trama de Satanás ou de
seus representantes contemporâneos, e que sempre descobrem um jeito
de dizer que tudo que é gostoso dá câncer, todos hão de convir
que um pilequinho, de vez em quando, não faz mal a ninguém e até
dá um realce, um brilho.
Tanto
é assim que Humphrey Bogart – aquele grande ator norte-americano,
do filme Casablanca – chegou a dizer numa tirada de humor, que o
problema da humanidade é que a natureza fez o homem com duas doses a
menos, o que o deixa mal-humorado, irritadiço e careta: duas doses a
mais, e muitos de seus problemas estariam resolvidos.
Não
sei se Humphrey Bogart estava certo. Sei, contudo, que um grande
número de pessoas pensa como ele, a ponto de corrigir diariamente,
através de drinques, essa suposta falha da natureza. O problema é
que, nesse afã de colocar a vida em ordem, milhões de pessoas
começam com as duas doses mas, com o passar do tempo, não param por
aí: esticam para três, espicham para quatro e, quando dão por si,
já estão com uma garrafa de gim debaixo da cama.
É
verdade que muita gente bebe sem que isso aconteça. Entra ano, sai
ano e, espontaneamente, conservam a moderação. Esses bebedores, é
óbvio, não tem com que se preocupar. Um brinde para eles!
Entretanto,
numa porcentagem relativamente alta (13%), a moderação de hoje
transforma-se no destempero de amanhã. Muitos começam a beber na
adolescência, normal e moderadamente; daí por diante, as doses vão
aumentando pelos mais variados motivos; quando chegam à meia-idade –
ou até antes -, estão bebendo descontroladamente e, admitindo-o ou
não, já são alcoólatras.
Eduardo
Mascarenhas