Atualmente
muitas “escolas” postulam que as pessoas devem aceitar a si mesmas, que devem
amar, respeitar, valorizar e dar importância a si próprias. Mas aceitar a si mesmo não significa se auto
adorar. Aceitar-se é uma postura diametralmente
oposta à auto importância, que, se manifesta com grande frequência em todos nós
e é ensinada como boa prática, quando, na realidade, deveria ser mostrada como
um dos grandes grilhões que nos trazem sofrimento, como efetivamente é.
Aceitar-se
é um ato de humildade, de simplicidade.
De
forma pouco sábia, estas “escolas” ensinam que as pessoas devem pensar mais em
si próprias, em seu conforto, prosperidade, prazeres, agindo sempre em seu
próprio benefício. Afirmam que aqueles
que pensam demais no próximo, esquecem de si e acabam sofrendo. Mas isso não é verdade. A verdade é que as pessoas só pensam em si
mesmas. Se fazem algo para agradar o
outro, é pensando nos benefícios que podem obter tal gesto, e não porque pensam
no outro. Estão pensando no
reconhecimento que poderão receber, estão querendo ser aceitas, adoradas,
aplaudidas. Esse desprendimento de
pensar no outro desinteressadamente não existe, é um equívoco, uma fantasia. Estamos por demais adormecidos para podermos
pensar em alguém que não seja em nós mesmos.
Ensinam-nos,
ainda, que, quando as pessoas experimentam algum tipo de prazer, estão fazendo
a vontade da alma. Este é mais um de
seus equivocados ensinamentos. Na
verdade, aqueles que se entregam aos prazeres, estão apenas a satisfazer o ego.
O
Budismo, o Hinduísmo e o Cristianismo pregam que todo sofrimento tem raízes na
cobiça, na ira, na ignorância. E, em sua
profunda ignorância, algumas “escolas” estimulam seus adeptos a desenvolver o
orgulho, pregam cobiça, reforçam a liberação da raiva, incitam à vingança. Nada disso é compatível com a aceitação de si
mesmo. Essas atitudes estão na contramão
do processo de auto-aceitação. Aquele
que se aceita e aceita o próximo não pensa em vingança jamais.
Assim,
o que precisamos verdadeiramente é pensar menos em nós mesmos, em nossos
desejos, em nossa ganância, vaidade, orgulho.
Pensar apenas em nós mesmos é um caminho que leva à inveja, à mágoa, ao
ressentimento, ao medo, à vergonha e à raiva.
Tal tendência é uma das grandes causas do sofrimento humano. Por isso, muitos mestres recomendam o
exercício caridade. Para que, aos
poucos, criemos o hábito de pensar no próximo.
Se
bem observarmos, veremos que toda ideia de prosperidade, que atualmente circula
no mundo espiritualista, de forma geral, não passa de um culto à cobiça, à
inveja, ao desejo, o que acaba levando à competição, à ira e à frustração.
Aceitar-se
não significa, de forma alguma, entregar-se aos desejos.
O
anelo da alma, a vontade da alma, não deve ser confundido com o desejo
concentrado do ego. Porém, mais
prejudicial ainda do que o desejo concentrado do ego é o desejo disperso do
ego, pois desejar coisas antagônicas, desejar algo diferente a cada instante é
uma fonte permanente de sofrimento.
Percebamos,
pois, que esses “ensinamentos” sobre prosperidade significam apenas tentações
para os nossos desejos, para os nossos demônios internos.
É
evidente que aceitar a si mesmo não equivale a um ato de repressão. Uma coisa é reconhecermos que temos raiva e
trabalharmos sobre ela, outra, bem diferente, é simplesmente liberarmos a
raiva, que é tão nocivo quanto não aceitarmos que estamos com raiva ou
fingirmos que não estamos com raiva.
A
auto-aceitação parece algo paradoxal à primeira vista.
Quando
não sabemos quem somos, queremos parecer algo que não somos, mas que
acreditamos ser. E, neste caso,
dependeremos da aceitação dos outros.
Reagiremos negativamente a qualquer manifestação que se oponha aquilo
que achamos que somos.
Quando
sabemos quem somos, ou pelo menos quando começamos a perceber o que não somos,
tudo aquilo que fazem ou dizem a nosso respeito não assume grande
importância. Podemos, inclusive,
aproveitar o que fazem ou dizem em favor de um novo aprendizado ou um aprofundamento.
Aceitar
a si mesmo não é um estado passivo.
Muito pelo contrário, é uma grande ação – a ação consciente de aceitar a
si mesmo.
Ora
vivemos de abordar alguns de nossos atributos, ora de rejeitar outros. A aceitação de si mesmo está muito além
destas duas polaridades.
Enquanto
se deseja algo, não há espaço para a aceitação de si mesmo. Para nos aceitarmos, precisamos atingir um
estado de contentamento, satisfação, gratidão.
É
importante observar, perceber, compreender, que o orgulho e a vaidade são
antípodas da auto-aceitação, e que geram apenas dor e sofrimento.
Não
podemos cair no auto-engano, não podemos criticar ou culpar a nós mesmos por
nossos defeitos. Tampouco devemos negar
a existência deles ou exaltar nossas virtudes.
Cada um de nós possui virtudes e defeitos em diferentes graus, que, por
sua vez, se equilibram, apresentando pouca diferença de gradação entre os
indivíduos. Assim, as aparentes
diferenças entre os seres humanos são apenas ilusões. Diante desta compreensão, seremos capazes de
reduzir em nós boa parte da preocupação em parecermos algo que não somos aos
olhos alheios. Diante desta compreensão,
seremos capazes de executar um trabalho mais tranquilo sobre nós mesmos, pois
todos temos os nossos defeitos e virtudes, e não há problema algum nisto. Basta aceitarmos os fatos e trabalharmos no
cultivo de nossas virtudes e no extermínio de nossos vícios e defeitos. Está é a busca da purificação em si.
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