quarta-feira, 16 de abril de 2014

10º PASSO DE A.A. (Visão Terapêutica)



        O Décimo Passo diz:  “Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados nós o admitíamos prontamente”.



        Como diz claramente o texto de “Os Doze Passos” de Alcoólicos Anônimos, a prática dos nove primeiros passos prepara o indivíduo para uma nova vida.  Evidentemente, é necessário muita disposição para tal e muito trabalho foi realizado para poder romper os principais vínculos elaborados com o objeto de dependência.  Graves deturpações do comportamento e das relações interpessoais, que transformaram o passado do alcoolista em um fardo insustentável a ponto de causar o sofrimento necessário à humilhante admissão de fracasso, tiveram de ser revistas e objetivamente encaradas.


        A partir de então, de acordo com a profundidade e a seriedade com que foram vivenciadas essas nove etapas do tratamento, resta ao paciente, efetivamente, conviver com seu momento presente.


        Livre dos principais entraves passados, objetivos e subjetivos, restam dinamizar o processo em termos atuais.  Consequências importantes da descaracterização da personalidade, da imaturidade emocional e do imediatismo serão, também objetiva e subjetivamente, enfrentadas pelo alcoolista em seu processo de recuperação.  Inicia-se, a partir de então, um novo tipo de convívio com suas emoções.  Evidentemente, emoções mais limpas, livres do acúmulo de culpas, remorsos e ressentimentos passados, mas igualmente desconfortáveis pelo inusitado.  Compreende-se que o uso de psicofármacos inibe, cronicamente, o contato com os sentimentos, tornando-os extremamente desconfortáveis.  Vivenciar raiva, paixão, alegria, tristeza, angústia, ansiedade, sem paliativos, exige um processo, igualmente demorado, de aprendizado.  A necessidade de alívio é constante e o imediatismo é um risco.  É necessário possibilitar, diante de tantas dificuldades, um saldo positivo para o paciente.


        Como fazê-lo?


        Sabemos que a dinâmica do processo de recuperação mantém-se pelos seus próprios ganhos, objetivos e subjetivos.  A capacidade de enxergar tais ganhos está na abrangência do referencial do indivíduo.  Esse referencial está moldado pela consciência do seu passado e das consequências deste em seu presente.  O ganho será vivenciado como tal, na medida em que represente progresso em relação a esse referencial.


        Em tudo isso está embutida a importância dos passos anteriores para a elaboração dessa consciência (referencial) e da motivação em função desta.  Está implícito, também, que as dificuldades presentes representam empecilhos, mais ou menos graves, para a manutenção dessa dinâmica.


        Portanto, concretamente, o Décimo Passo trata de uma maneira objetiva de trabalhar essas dificuldades presentes antes que passem a representar entraves sérios.  As chamadas armadilhas podem e devem ser desfeitas, antes que o desconforto originado seja mais forte que a perspectiva de alívio e o indivíduo recorra ao recurso já conhecido, o álcool.


        Os sentimentos devem ser trabalhados de forma a não representarem ameaças e sofrimento.  O indivíduo pode, através de um contato sistemático com suas emoções, evitar as deturpações, o acúmulo e as reações patológicas, todos geradores de maior desconforto.


        O ideal para isso é o auto condicionamento.  Um contato frequente, se possível diário, com essas emoções, é fundamental para uma convivência mais saudável com elas e para um maior aprendizado sobre si próprio.  Uma análise cuidadosa e detalhada dos fatos e motivos envolvidos é importante para a elaboração de um conhecimento mais amplo de suas reações.  O fato de conhecer-se, aprendendo sobre si próprio a partir do contato com suas emoções e reações, possibilita ao alcoolista avaliar seu momento sem permitir que falhas acumulem-se e permaneçam, cronicamente, distorcendo seu comportamento.  Um episódio de raiva pode ser analisado como despropositado e, a partir de então, objetivamente reformulado, evitando reações igualmente descabidas, consequentes entraves ao relacionamento, e mais emoções desconfortáveis e desnecessárias.


        Neste momento, o admitir o despropósito da emoção não significa fracasso e sim um importante mecanismo de facilitação da convivência social.  A partir do momento em que o alcoolista é capaz de fazê-lo, torna-se possível, para ele, elaborar seu comportamento de maneira saudável, evitando problemas desnecessários e maior desconforto.


        O alívio e o prazer estão implícitos nesse movimento pela grata sensação de estar tentando melhorar, o que não implica, evidentemente, em acertar sempre.  Gratificar o convívio interpessoal, através de reações saudáveis às emoções despertadas pelos relacionamentos, é tarefa muito difícil, principalmente para o alcoolista, em função de distorções emocionais e comportamentais crônicas.  Seria utópico desejar que de uma hora para outra ele fosse capaz de relacionar-se de forma saudável e prazerosa.  Ele pode, apenas, tentar.  E através da motivação para essa tentativa, procura-se possibilitar, pelo inventário diário, o acesso aos progressos e dificuldades desse processo e, com base neles, incentivar e facilitar as próximas tentativas.


        Evidenciar ganhos enquanto estes não são tão evidentes e possibilitar a conquista de novos enquanto se processa a reeducação social, esses são os objetivos do Décimo Passo.  
   

        O profissional e o grupo terapêutico são importantes elementos para auxiliar o paciente nesse inventário.  A clareza, a objetividade e a imparcialidade, além da possibilidade de um espaço para catarse e obtenção de alívio, são cada vez mais relevantes.



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