Alberto Duringer – Médico
Vamos
imaginar que um médico seja chamado para atender caso de pneumonia e encontre
uma família muito preocupada, porque o doente está com febre alta, tosse e
intensa dor nas costas. Todos ali estão
alarmados com os fortes sintomas que o doente apresenta e só falam neles. Já tendo visto diversas situações
semelhantes, o médico dá importância menor a estas queixas, identifica que a
doença primária é pneumonia e enfatiza a necessidade de antibióticos. Seria grave equivoco diagnosticar a doença
primária como sendo tosse e se limitar a um xarope qualquer ou como sendo dor
nas costas, receitando só um analgésico.
O
que é fácil na pneumonia, doença aguda e de aparecimento rápido, fica muito
mais difícil no alcoolismo, doença crônica, progressiva e de evolução lenta,
onde muitos sintomas só vão aparecer anos após o início da enfermidade. Ao ver o doente pela primeira vez, frequentemente
já em estado avançado, o médico ouve do alcoólatra e de seus familiares uma
série de queixas ligadas a adoecimento físico importante, a distúrbio de
comportamento que pode beirar a loucura e acentuada perda de valores
ético-morais, ficando sem saber direito o que apareceu primeiro e onde está a
doença básica, a qual deve ser seu primeiro alvo de tratamento.
Até
o final do século passado, quase todos admitiam estar a origem do alcoolismo na
esfera ético-moral: o alcoólatra bebia
porque era fraco de caráter, porque não dispunha de reservas morais para resistir
ao vício ou simplesmente porque não tinha vergonha na cara. Estando a doença primária nesta área e tendo
sua origem numa sem-vergonhice, o tratamento limitava-se a umas lições de
moral, alguns bons conselhos ou exortações de cunho religioso, sendo os resultados
obtidos bastante precários.
Depois
da publicação das obras de Freud, muitos profissionais passaram a ver as coisas
de forma diferente e começaram a situar a doença primária na esfera
psíquica. A origem do problema estaria
em algum conflito de personalidade, em algum trauma profundamente escondido no
subconsciente e este distúrbio fazia com que o doente passasse a beber
descontroladamente. Visto desta forma, o
tratamento mudou bastante: agora, o
doente era deitado em um divã, fazendo análise durante muito tempo, na
tentativa de descobrir a razão deste seu comportamento. Gerações de analistas e gerações de
alcoólatras perderam seu tempo nesta busca, os últimos bebendo cada vez mais.
Hoje
em dia, há muita gente colocando a doença primária na esfera social. O doente é pobre, às vezes miserável, ganha
salário mínimo, mora na favela, tem família numerosa, às vezes passa fome e
diante de tantas desgraças juntas, só pode mesmo tornar-se alcoólatra. Ele bebe para esquecer. Pensando assim, o tratamento fica difícil,
mas não impossível: vamos admitir este
alcoólatra ganhar sozinho a Sena da Loto e transformar-se em um milionário, da
noite para o dia, ficando automaticamente curado de sua doença primária, a pobreza. Agora, rico e com seu problema resolvido, não
tem mais motivos para beber ou no máximo vai fazê-lo socialmente. Alguns exemplos conhecidos mostram que na
prática as coisas não são assim e, além do mais, esta teoria tem também o grave
defeito de ser muito paralisante; como o
profissional de saúde não pode transformar todos os seus doentes em pessoas que
morrem em boas casas, não passem fome e ganhem salários dignos, acaba ele
cruzando os braços e diz nada poder fazer:
culpada é a situação do País, que ele não pode modificar.
Neste
ponto, vale a pena citar estatística do governo suíço, publicada recentemente
em Genebra. Em 1989, 90% dos suíços
beberam dez por cento das bebidas alcoólicas colocadas a venda; os outros 10%
acabaram bebendo noventa por cento do álcool disponível no país. Em outras palavras, na Suíça temos o mesmo
número aproximado de alcoólatras que nos demais países ocidentais, embora não
tendo, nem de longe, os problemas sociais que enfrentamos no Brasil. Aqui, o INAMPS estima o número de alcoólatras
em 14 milhões, percentualmente número bastante parecido.
Na
realidade, a origem do alcoolismo, a doença primária, dificilmente pode ser
procurada na área psíquica, social ou ético-moral. As esmagadoras maiorias dos pacientes adoecem
primariamente pelo lado físico; começam a beber sem problemas, como a maioria
das pessoas, mas por uma série de fenômenos próprios do seu organismo, como as
enzimas que têm no seu fígado ou as combinações que, derivadas do álcool fazem
com que seus neurotransmissores cerebrais acabem mais tarde transformando-as em
alcoólatras.
Estas
enzimas existem no fígado humano para decompor e eliminar o álcool ingerido,
transformando-o numa primeira etapa em uma substância bastante tóxica,
denominada acetaldeido. Este
acetaldeido, normalmente também completamente decomposto e eliminado, começa em
alcoólatras a se combinar com diversos neurotransmissores, como por exemplo
dopamina ou serotonina, dando origem a um grupo de outras substâncias,
denominadas tetrahidroisoquinolinas, abreviadamente conhecidas como TIQs. Existem TIQs, como o THP
(tetrahidropapaverolina), que têm ação muito parecida com a da morfina.
Pois
bem, macacos injetados com TIQs, em experiências feitas na universidade da
Carolina do Norte, desenvolveram enorme avidez por álcool, que passaram a beber
em grande quantidade, até atingir estágio de consumo irreversível. Existem ratos os quais, por sua natureza,
rejeitam completamente qualquer líquido que contenha etanol, mesmo pequenas
quantidades, preferindo passar sede e até morrerem desidratados, injetados com
TIQs, transformam-se em grandes consumidores de álcool e morrem de
cirrose. Há muitas outras experiências
com animais de laboratório, com resultados semelhantes. Daí para a frente, fica muito difícil
explicar que estes animais estavam bebendo por quaisquer razões psíquicas,
éticas ou sociais, porque a origem do processo (doença primária) estava, na
realidade, relacionada com a injeção de uma substância química proveniente de
alcoólatras humanos.
Em
outras palavras, a doença primária, no caso do alcoolismo, é adoecimento físico
– a síndrome da dependência química ao álcool etílico – que se situa no cérebro
dos alcoólatras e não na mente. Mesmo
que o alcoólatra não tenha mais TIQs circulando, por não estar bebendo, isto
não significa seu cérebro ter desaprendido as reações químicas necessárias para
seu aparecimento. Nestes sentido,
alcoolismo é doença incurável, porque a capacidade de reagir ao álcool de forma
diferente à dos não-alcoólicos fica marcada no organismo. Não há força de vontade ou reserva moral
capaz de impedir a fabricação de TIQs na presença de álcool etílico, nesta
pessoa. Ao voltar a beber, a produção de
TIQs retorna também aos níveis de antes, provocando a perda do controle e a
instalação de recaída mais ou menos rápida.
Nas
dependências químicas, de modo geral, observa-se clinicamente o organismo
passar a fabricar e a colocar em circulação substâncias de efeito oposto ao da
droga que está sendo usada. Portanto, na
ausência dela, vão surgir sintomas contrários aos dos períodos de uso – é o que
se chama de síndrome de abstinência.
Assim, quem for dependente de remédio para dormir, vai ter insônia na
noite em que não tomar o comprimido, quem for dependente de café, vai sentir-se
sonolento na manhã em que não o ingerir, tudo variando de acordo com a droga
utilizada e a intensidade da dependência por ela provocada.
No
alcoolismo, alguns TIQs seguem esta linha e têm efeito excitante, já que o
álcool é depressor do sistema nervoso central.
Durante o sono, o organismo do alcoólatra elimina álcool e fabricam
substâncias excitantes, fazendo-o acordar pela manhã nervoso, trêmulo,
inquieto, ansioso, com pulso acelerado, sensações estas todas muito
desagradáveis. Pela experiência, sabe
ele que o melhor remédio para voltar ao normal e parar de tremer é ingerir
algumas doses de álcool – e o ciclo recomeça.
Note: o alcoólatra que busca desesperadamente um
bar ou padaria que abra às 5 horas da manhã, para tomar sua bebida, não está
mais movido pela busca do prazer ou da companhia dos amigos; não está também
querendo embriagar-se, ele busca apenas alívio para uma situação muito
desagradável, a impedi-lo até de ir para o emprego, através do único remédio
que ele conhece, muitas vezes já agora cheio de culpas e vergonhas. Usa manhas e artifícios para esconder dos
outros a quantidade de álcool que bebe; começa a ter medo de estar em lugares
ou situações onde talvez não possa beber.
O álcool passa cada vez mais a ter papel preponderante em sua vida, já
que, para sentir-se normal, depende quimicamente dele. Com as várias negações e racionalizações,
surge processo de adoecimento psíquico ou comportamental, a sobrepor-se ao
físico, já existente. Na maioria das
vezes, só aí passa a chamar a atenção como doente, apesar de o início do
processo estar situado muitos anos atrás.
Ao
partir do princípio de a doença básica no alcoolismo ser uma dependência
química, existe uma ordem no adoecimento:
primeira a física, segunda, psíquica e terceira, espiritual (ou
ético-moral), podendo haver muitos anos de intervalo antes de uma área
estender-se para outra, até que todas as três estejam comprometidas.
Desta
forma, qualquer recuperação, para ser bem-sucedida, tem de seguir a ordem
natural das coisas e começar pelo lado físico:
primeiro, o doente tem que parar de beber. Iniciada a abstinência, pode vir a busca da
sanidade psíquica. Finalmente,
encontrando-se o paciente física e emocionalmente equilibrado, sem álcool, pode
ele recuperar ou adquirir novos conceitos ético-morais. Um alcoólatra fragilizado, doente e rejeitado
pode fazer isto tudo sozinho?
Torna-se
evidente a necessidade de ajuda externa, a qual não deve ser tarefa privativa
de Alcoólicos Anônimos. Médicos,
psicólogos, assistentes sociais, agentes de saúde em alcoolismo, cada um na sua
área profissional, mas formando uma equipe multidisciplinar, vêm tendo cada vez
mais importância no trabalho de recuperar alcoólatras.
Alcoólicos
Anônimos, irmandade não-profissional, que não se envolve em controvérsias, que
não age por promoção e sim por atração, é sem dúvida recurso da maior
importância. Seus membros não aceitam
ajuda externa e não visam a proveito financeiro, ou prestígio pessoal,
concentram-se na atividade de ajudar outros alcoólatras a também se recuperarem.
Historicamente, foi o A.A. quem
primeiro percebeu a existência de uma história natural do alcoolismo e que a
doença básica era um processo físico, tanto é que atua obedecendo a este
ordenamento: primeiro, o alcoólatra é
convidado apenas a parar de beber, nem que seja por 24 horas; nesta fase
inicial, ainda muito confuso e fragilizado, não se pode mesmo exigir muito mais
dele e para confortá-lo e fortalecê-lo, oferecem-se as milhares de reuniões
existentes no Brasil inteiro. Segundo,
havendo já um raciocínio mais lúcido e melhor aceitação de sua doença, passa-se
a oferecer um programa individual de recuperação, a nível de comportamento e
relacionamento com o mundo exterior, que se resume numa escalada de 12 Passos,
em seqüência. Terceiro, abstinente e
reconciliado consigo mesmo e com o mundo lá fora, o alcoólatra encontra novos
valores espirituais, como, por exemplo, os que se alicerçam nas 12 Tradições de
Alcoólicos Anônimos, dispondo-se inclusive a ajudar outros alcoólatras a também
se recuperarem.
Tratando-se
de doença crônica, o alcoolismo exige permanente ação de recuperação: trata-se de programa para toda a vida. Frequentemente, encontram-se recuperações
apenas parciais, em que alcoólicos param apenas de beber e mais nada,
recusando-se a fazer mudanças no seu comportamento, atitudes e valores; estas
pessoas estão abstinentes, mas ainda muito adoecidas psíquica e
emocionalmente. A esta situação, a
comunidade de A.A. costuma dar o nome de “porre seco”.
A
vigilância sobre o perigo da recaída deve ser permanente, já que é engano
pensar que ela se inicia no primeiro gole.
Na realidade, a recaída termina nele, uma vez que aí o processo é
inverso: primeiro, o doente perde
valores espirituais, depois fica emocionalmente desajustado, voltando a
apresentar distúrbios de comportamento, até que finalmente volta a beber. Há uma série de sintomas precedentes desta
volta e muitos podem ser percebidos pelo próprio ou por pessoas que o cercam,
desde que estejam vigilantes. A recaída
emocional pode ser perfeitamente revertida, antes de o doente estar com seu
raciocínio crítico tão perturbado, a ponto de achar que o álcool possa ser
novamente solução para seus problemas.
Recuperação
e recaída são como duas faces da mesma moeda, quem não está se recuperando,
estará recaindo e vice-versa. Esta
gangorra, no plano puramente emocional, é absolutamente normal e não deve
assustar ninguém além da sua justa medida.
Outros doentes crônicos, o diabético com sua dieta, o reumático com seus
exercícios, o hipertenso e seus cuidados com o sal, apresentam de modo
diferente a mesma problemática de recuperação e recaída.
No alcoolismo, importante é não
deixar qualquer recaída evoluir a ponto de voltar a beber, porque aí entram em
ação as poderosas forças da doença primária – a dependência química – e aí a
situação fica novamente fora do controle do doente.
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